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quarta-feira, julho 18, 2018

Resposta a uma entrevista em 22 de abril de 2018


Perguntas feitas por Maykson Douglas




1- Quando começou sua paixão pelo cinema?


A lembrança mais antiga da minha relação com o cinema é de assistir filmes na TV, o que me levou a frequentar na infância e adolescência locadoras de filmes, a mais tarde frequentar cineclubes, ações formativas e mostras de cinema.


2- Quais as dificuldades de fazer Cinema em Alagoas? Quais os espaços e o que se tem de incentivo por parte das entidades governamentais?

Em Alagoas, as dificuldades de fazer Cinema estão conectadas com a não preservação das obras realizadas em película, com a inexistência de incentivo em pesquisa e registro da história do cinema alagoano, ausência de espaços que exibam os filmes produzidos, do escasso investimento em difusão das obras realizadas (com financiamento e independentes) e com a indisponibilidade de espaços de formação na área (técnica, tecnológico, graduação e pós-graduação).


Os hiatos entre as edições dos editais de incentivo realizados pela Prefeitura e pelo Estado, resultam em filmes não realizados, e os recorrentes atrasos nos pagamentos, inferem em prejuízos incomensuráveis aos que tiveram projetos aprovados e ficaram sem poder cumprir o planejamento previsto. A realização sistemática de editais de incentivo ao audiovisual alagoano não é uma realidade, o que imprime retrocessos e interrompe a fluidez do setor.


A produção audiovisual tem sido impulsionada sistematicamente pelos profissionais do segmento e demais interessados/as que buscaram realizar filmes nos últimos três anos em boa parte com recursos independentes. Visto que a edição do edital do estado de 2015 foi cancelada em 2016, reformulado e lançado ainda no mesmo ano, o qual só teve o processo de repasse dos recursos iniciado no final de 2017. E o último edital da Prefeitura de Maceió foi realizado em 2015.


Um espaço de convergência de profissionais e interessados no audiovisual é o Fórum Setorial do Audiovisual Alagoano, responsável pela realização da Mostra Sururu de Cinema Alagoano - ação que desde 2009 apresenta um recorte da produção audiovisual no Estado.


A Mostra Sururu tem sua 9ª edição prevista para outubro de 2018, a realização desta ação é um incentivo essencial para que mais realizadores apresentem publicamente os seus filmes, haja reconhecimento das produções pelos profissionais e interessados no audiovisual, além das trocas possibilitadas através de espaços de convergência como Mostras e Festivais de Cinema.

O Circuito Penedo de Cinema, é uma ação realizada pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) desde 2011 em Penedo-AL, proporciona a convergência de profissionais e interessados no audiovisual de todo o Brasil para o evento que conta com Mostras competitivas e ações formativas.

O Alagoar é um site dedicado ao audiovisual alagoano, disponibiliza informações sobre as ações formativas, Mostras e Festivais realizados no Estado, assim como realiza a catalogação das produções audiovisuais.


O Sesc Alagoas realiza ações formativas em audiovisual, um destaque das ações desenvolvidas pela instituição é o Ateliê Sesc de Cinema que proporciona anualmente a imersão de um grupo de jovens e adultos na feitura de documentários, através dos módulos bê-a-bá audiovisual, roteiro, fotografia e som, direção, produção, filmagem e montagem. Desde 2009 foram realizados 22 documentários através deste projeto.




3- Em suas participações em mostras/festivais de cinema em outros estados do país, o que você percebe de diferente em termos de investimentos/ações na sétima arte?


Tive a oportunidade de acompanhar o Festival de Cinema de Triunfo em 2016 e a Mostra de Cinema de Tiradentes em 2017 e 2018, acompanhar uma Mostra ou Festival de cinema é uma experiência única, intensa e de muito aprendizado. Cada uma dessas ações reflete a sua maneira as questões essenciais e mais urgentes do cinema brasileiro. O Festival de Cinema de Triunfo é organizado pelo governo de Pernambuco, e a Mostra de Cinema de Tiradentes tem além do recurso estadual conta com o patrocínio de várias instituições privadas e públicas.


Atualmente o Circuito Penedo de Cinema conta com a realização do governo de Alagoas, além da UFAL e do IECPS, o que possibilitou que houvesse um crescimento na estrutura do Circuito, passando a somar mais duas mostras competitivas ao Festival de Cinema Universitário de Alagoas, entre outros investimentos em ações e estrutura dentro da programação das duas últimas edições. A Mostra Sururu de Cinema Alagoano teve sua última edição em 2017 contemplada no edital Mestre Cicinho realizado pela governo de Alagoas, o orçamento de 40 mil implicou em produzir a Mostra com metade do valor orçado para a sua realização.


As diferenças entre as mostras e festivais de outros estados que pude acompanhar foram prioritariamente de orçamento, pois vejo a diversidade de abordagens, ações, curadorias e programações como processo natural de ações como estas que buscam apresentar panoramas da produção brasileira e proporcionar ações de convergência para os profissionais e interessados no setor. Mas a diferença de orçamento, é uma questão que angustia e em muitos casos inviabiliza a continuidade de mostras e festivais em todo o país. A sistematização, diversificação e expansão de Mostras e Festivais é essencial para o desenvolvimento e fortalecimento do cinema brasileiro.



4 - O projeto Ateliê Sesc de Cinema é uma das poucas ações que possibilitam o contato de jovens e adolescentes com produção audiovisual, qual a importância dessa iniciativa?


A importância de iniciativas como o Ateliê Sesc de Cinema ficam impressas nas pessoas que participam, assistem e que ainda estão tomando conhecimento do que é esse projeto. Quando ouvi falar do Ateliê em 2009, fiquei imensamente curiosa, transpirei encantamento desde que vi os primeiros filmes. Tenho podido acompanhar o projeto de perto desde 2012 quando passei a ser responsável pela produção dele como analista em audiovisual do Sesc Alagoas.


Participar do Ateliê é poder dar vazão ao desejo de contar uma história através de imagens em movimento. E esse desejo de contar histórias através do audiovisual tem o potencial de tocar mais e mais pessoas ao ponto que elas compreendem como podem desfrutar dele.


O Ateliê Sesc de Cinema é a única ação formativa realizada sistematicamente desde 2009 em Alagoas com módulos teóricos e práticos, do roteiro até a montagem do filme, com proposta de imersão no audiovisual através de um recorte da cidade de Maceió que é proposto a cada edição, numa construção coletiva.


O ideal seria ter projetos como esse em cada cidade de Alagoas, além de cursos e oficinas livres, formação técnica, tecnológico, graduação e pós-graduação em cinema/audiovisual.


5 - Na sua ótica, quais são os desafios para a nova geração do audiovisual em Alagoas e o que esperar para o futuro?


A estruturação do audiovisual em Alagoas pode ser encarada como um investimento pelos olhares de quem assumir um compromisso com o setor. Investir para que seja disponibilizada uma sala para exibição permanente de cinema brasileiro e alagoano; viabilizar sala de aula e professores para realizar formações livres e técnicas; assim como gerenciar acesso a filmadoras, ilhas de edição, equipamentos de iluminação e captação de áudio; possibilitar que anualmente seja realizado edital de incentivo ao audiovisual com seleção e pagamento dentro do prazo; investir na criação e manutenção de cineclubes, mostras e festivais; estruturar a preservação, pesquisa e registro da memória audiovisual em um centro com profissionais especializados.


São ações que podem ser executadas ainda esse ano e nos demais, mediante articulações e providências, sem necessidade de promessas vazias para reforçar o desenho desse futuro incerto ainda sem previsão de edital de incentivo, sem ações de formação, espaço para exibição das obras alagoanas, com acesso escasso a equipamentos para filmagem e montagem, e sem a estruturação de acervo, pesquisa e preservação da memória do audiovisual alagoano.


O desafio para novas e para todas as gerações é buscar conhecimento, investir na realização e difusão dos filmes, articular os diálogos para construções coletivas que impliquem no desenvolvimento e fortalecimento do setor.


6- - Qual a importância de uma política de investimentos em audiovisual, tendo em vista que o nome de Alagoas acaba viajando pelo país e, para fora dele, contando histórias e propagando a cultura local?


Entre janeiro e abril de 2018 filmes alagoanos foram selecionados para a 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, 3º Cine Paraíso, II Mostra Itinerante Livre de Cinema: "Milc - Por Outras Fortalezas", 11º Curta Taquary - 2018, Festival Mimoso de Cinema, II Festival de Cinema do Paranoá, 2ª Mostra de Cinema Contemporâneo do Nordeste e 6º FestCine - Curta Pinhais. A frequência da inserção de filmes alagoanos nas listas de seleção e programação de Mostras e Festivais em todo o Brasil está visivelmente crescendo. E esse resultado é alcançado por filmes realizados através de editais de incentivo como também por filmes independentes.


A importância de uma política de investimentos em audiovisual em Alagoas tem como base a consolidação de uma estrutura mínima para formação, difusão, exibição, preservação e realização, que somada ao potencial crescente das produções audiovisuais alagoanas pode determinar a maturação e o alcance destas produções. A produção recente comprova que mesmo com a política desestruturada e descontinuada, apresentada nos últimos quatro anos, o investimento dos profissionais e interessados tem garantido uma difusão significativa dos filmes alagoanos em mostras e festivais, o que poderia ser consolidado e melhor desenvolvido em conjunto com investimentos e a execução de uma política audiovisual sistemática.

segunda-feira, outubro 23, 2017

Festal 2017: Tarja Preta

Estar no escuro e não poder acender uma lanterna ou uma vela causa um desconforto.

A orientação para os espectadores de Tarja Preta foi para colaborar com o black out, evitando estar com o celular ligado ou qualquer outro aparelho. Foi um desafio para mim não poder ligar a minha câmera fotográfica, confesso que até tentei, mas ao ver o visor dela quebrar o black out retrocedi e não fotografei durante a apresentação de Tarja Preta.

Me vi no escuro desejando que alguma luz iluminasse a cena algumas vezes durante o espetáculo, senti ansiedade, apesar de já conhecer Tarja.

Participei do processo de construção do Três no Escuro, projeto que reúne os solos "Mal" e "Tarja Preta" e a videodança inacabada "Desfocado" da qual estive mais imersa no processo.

Reencontrei a minha ansiedade reassistindo Tarja hoje, encontrei a trilha sonora como se não a tivesse ouvido daquele jeito antes, e ainda senti que do meio pro fim do espetáculo a soma da trilha com o ar condicionado deu um tom ainda mais cíclico a apresentação. Reencontrei a necessidade de falar, expressar, compartilhar os momentos de angústia, limitação, estresse, depressão, fragilidade. Principalmente encontrei a maturidade do espetáculo, reencontrei Joelle e senti uma imensa admiração pela sua entrega a Tarja, pela sua força em cena e ao fim na conversa com o público.

Fiquei emocionada e agradecida pelas memórias e reencontros que reassistir Tarja me trouxe. 

quinta-feira, agosto 03, 2017

34 dias

Compreendi na adolescência que não tinha relacionamento com a minha avó paterna nem como meu avô materno, nem por isso deixei de desejar ter avôs, mas ao mesmo tempo não optei por ir atrás deles. Não me deram o direito de ir ao enterro da minha avó, ela é uma memória que foi se apagando após os meus 18 anos.

A minha mãe sempre manteve a memória dos pais dela viva. Buscou pelo pai dela de uma forma que eu nunca busquei pelos meus avôs, nem pelos meus pais.

Não vim aqui escrever no dia 30 de junho, pois não sabia bem o que escrever sobre o enterro do pai da minha mãe.

Passei o dia referenciando ele assim, o pai da minha mãe, pois ao dizer para qualquer pessoa que o meu avô faleceu, estaria certa de que haveria uma comoção forte, e ao não me referir a ele como avô tentava contar sobre a nossa não relação, e minimizar a comoção que surgiria nos outros e que esperariam em mim.

Não vejo a morte dele com indiferença, ir ao seu enterro não foi um dia como outro qualquer.
Foi uma breve estadia num seio familiar que por motivos alheios a meus desejos não era o meu. As pessoas que me reconheciam por já terem ouvido falar de mim, a mim nunca foram referenciadas. Já as mais próximas do meu avô que eu via estarem sofrendo, geravam em mim consolo por sentir que havia afeto por ele.

Estava consciente de que não busquei por ele, assumi como real o distanciamento que reconheci de alguém que não me convidou para ficar perto e que não me movi para me aproximar.

A morte pra mim é sinônimo de avó, pois perdi a minha avó materna com 1 ano e 10 meses e a ausência dela é um sentimento que continuo trabalhando para amadurecer.