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quinta-feira, agosto 17, 2006

Observar tem o seu valor

Larissa Lisboa
Iara andava na chuva numa manhã sem planos, direção ou clareza. Pensava em fugir, brigar, extravasar, o “nada” que sentia, de todas as maneiras, porém, sem forças ou apoio acabou por entregar-se à confusão.
Fazia apenas duas horas que ela havia acordada, ajeitado as coisas e partido em busca de alguém que não estivesse dormindo, já que todos em sua casa o faziam. Pegou o ônibus e começou a procurar em seu ciclo de amigos quem poderia acudí-la e a sacudir de volta para a realidade.
Quando avistou o mar resolveu descer no ponto menos movimentado e caminhar um pouco. Caminhou por muito mais que meia hora absorta e completamente concentrada em si, a chuva tentava reconectá-la, mas ela custou para sentir-se encharcada e nem se incomodou com a situação.
Iara estava imersa em conflitos novos e outros eternos, numa mistura de tristeza, medo, dúvida, saudade e alegria. Essas imersões eram comuns em seu cotidiano, crises existenciais não a amedrontavam, contudo nunca houvera um aprofundamento e um baixo-astral como o que ela havia embarcado naquela manhã. Não chorava, nem expressava um sentimento definido através das feições em seu rosto.
Pelos tropeços e poças d’água pisadas era possível perceber o quanto ela estava distante, entretanto, quanto mais a caminhada se prolongava menos transeuntes circulavam pelo seu caminho, não houve quem a notasse e essa ausência não a perturbava.
Não era incomodo ter de dobrar na rua seguinte ou evitar uma determinada esquina, subindo e descendo calçadas, já que seus outros mecanismos estavam tão aflorados quanto os de sua mente. A roupa pesava, a chuva diminuía ou aumentava bruscamente, Iara não conotava a medida desses fatos, nem de tantos outros interligados ou perdidos em seus pensamentos.
A transparência da chuva, o frio das gotas que tocavam o seu braço e o peso da roupa eram desfrutados por ela como uma consolação diante da imersão que vivia. E então deparou-se em um lugar que nunca aparentara estar tão cativante quanto naquele momento, retornou de seus tormentos e começou a observar o local onde resolvera ficar, um ponto de ônibus vazio.
Na verdade aquele era o mesmo de onde ela havia iniciado sua jornada de milhões de segundos e que havia durado quase três horas. Não parara por estar cansada fisicamente, todavia pela exaustão que sentia em sua mente. Mal sentiu a ausência da chuva ao sentar-se no banco do ponto. Começou a aguçar seus sentidos em um novo despertar por meio do vento que se tornava mais gelado ao encostar-se a sua pele ainda muito molhada. Constatou que não tinha pretensões de pegar mais nenhum ônibus, e pensava em não dar mais passo algum.
Gostou da tranqüilidade que transpirava do pequeno fluxo de carro nas ruas, de quase não ter pessoas ao seu redor, pois ainda estava chovendo, e a bela vista que finalmente se permitiu ter, era a contemplação da paisagem daquela praia que tanto conhecia, mas que estava mais bonita naquele dia, mesmo sem estar convidativa e toda acinzentada.
Ao retornar o mergulho no turbilhão de seus pensamentos percebeu finalmente o cansaço de seu corpo, não foi difícil lutar contra a exaustão de sua mente, pois as dores físicas eram mais persistentes.
Iara desviou-se de seus pensamentos mais uma vez ao conseguir distinguir um vulto que há alguns segundos estava a revelar-se diante de seus olhos, a chuva não permitia que ela tivesse certeza de quem era, mas quanto mais a imagem se formava perante os seus olhos o coração dela saltitava.
Distraiu-se do vulto ao receber um banho de uma poça por onde um carro havia passado em frente ao ponto de ônibus. Ao procurar o vulto, não o via mais tão indecifrável. Enfim reconheceu sua voz, embora não tenha entendido suas palavras, era César, uma pessoa que não encontrava há muito tempo e nem saberia se ainda teriam o que conversar.
César e Iara não sabiam com o que ficar mais abismados se com o fato de ambos estarem molhados e com demonstrações de exaustão ou se porque aquele encontro poderia ajudá-los ou deixá-los ainda pior.
Ao ficarem cara-a-cara, esqueceram das palavras e das dúvidas por alguns segundos, trocaram sorrisos e sentaram lado a lado no ponto de ônibus. Foi revigorante para ambos passar o restante daquele dia juntos conversando, podia ser que não recuperassem a amizade ou o amor que há mais de dois anos haviam vivenciado e parecia ter sido findado.
Iara percebeu que César compreendia tudo o que ela tinha vivenciado nas primeiras horas daquele dia e assim deduzia que aquele “César” que reencontrara era com certeza mais interessante e forte do que o ela conhecera. César não quis dar lições de vida para ela, pois achava que tinha mais a aprender com aquela Iara, deslumbrante que então observava. Surpreendia-se por ainda ter admiração pela capacidade que ela continuava tendo de fazê-lo sentir-se completo e interessado em discutir tudo e qualquer coisa.
Ao avaliarem os fatos que haviam promovido aquele encontro relutaram em crer que ambos estavam a procurar um pelo outro, pois aquela praia que avistavam do ponto de ônibus havia sido o palco de toda a história de amor e da amizade dos dois.
A fome os levou a caminhar até a lanchonete mais próxima, depois caminharam sem rumo, só parando para tomar água de coco e em seguida para almoçar num restaurante em que nenhum deles havia voltado desde que deixaram de se falar. Também jantaram juntos. Sentiram como se aqueles dois anos estivessem sendo recuperados nas 20 horas em que não se desgrudaram, não pouparam brigas, mágoas ou lágrimas, estavam dispostos a finalizar renovados aquele reencontro.
Queriam continuar se comunicando, mas sem apegos ou rigidez, pois inconscientemente prometeram que a espontaneidade deveria ser a ponte de ligação entre eles, até que estivessem sintonizados o suficiente para decidirem se aquilo que aflorava da ligação deles era forte e eterno como presenciaram naquelas 20 horas.
Aquele dia não foi o único, foi o incentivador de muitos e pode ser superado por tantos outros. César e Iara passaram a alimentar a certeza, de que mesmo que a história deles não fosse revivida, ela nunca mais seria esquecida.
Muitas coisas ficaram ou continuariam incertas, apagadas ou seriam reavivadas para compreender tantas mágoas, dúvidas e imersões que assaltavam Iara no decorrer de sua vida. Para ela não cabia e nem queria determinar se aquilo era um ciclo, se sofrer era parte da vida, ou se só conseguia amadurecer através dos conflitos em seus pensamentos. Pois o que guardara e aprendera daquele dia permitiu que o estivesse ou submergisse do passado, do presente ou do futuro em sua vida e mente a encontrasse pronta e desejosa de vivenciá-los dali por diante.

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