domingo, abril 28, 2024

Entre frustrações e prazeres de criar imagens e confeccionar produtos personalizados

 A minha relação com a fotografia teve início com o uso de máquinas fotográficas analógicas. Limite de 24 ou 36 poses a depender do filme, não saber se eu tinha errado ou acertado o foco e o enquadramento até a revelação, era parte deste processo. Assim como só poder comprar filme ou revelar quando conseguia recursos para isso.

Por volta de 2003 eu tive acesso a primeira câmera digital fotográfica, era emprestada da universidade, pois eu só vim a ter minha primeira câmera fotográfica digital em 2007. Depois que eu comecei a fazer fotos digitais, não quis mais parar, e isso foi possível porque um amigo me emprestava a câmera dele, até eu ter a minha.

Antes de ter uma câmera digital fora do celular, eu tive celulares com câmera, mas a qualidade da câmera dos celulares era baixa, e as câmeras digitais fotográficas tinham opção de zoom, além de ter mais megapixel também.

Foi quase automático parar de revelar as fotografias, até porque não sobrava recursos para isso. Assim só depois de fazer um oficina sobre criação de livros de fotografia em 2015 que eu me dei o direito de criar um fotolivro com fotografias minhas. Estou falando de impressão a partir de site popular de fotografia, e que eu pude fazer porque rolava e rola até hoje promoções e o valor fica mais em conta.

Cheguei inclusive a fazer algumas dezenas, e há algumas dezenas de pessoas que ganharam ou compraram um fotolivro com as minhas fotografias refletidas.

Não sei precisar por quanto tempo eu providenciei a confecção dos fotolivros, talvez um ano, ou menos, até eu me convencer que era melhor parar. Não deixei de sonhar em publicar um livro de fotografias minhas, mas não consegui entender como poderia viabilizar isso sem um edital.

Cheguei a submeter propostas para os raríssimos editais de livros de fotografia que encontrei, o que só me garantiu engavetar quatro propostas de livros de fotografia, que não mantive fé de que devia tocar para frente depois que foram rejeitadas.

A minha relação com a fotografia passou por vários bloqueios nos últimos anos, o principal deles é derivado do medo de sair na rua com a minha câmera DSLR, o que acabou ficando bem alinhado com a transformação que eu passei desde a pandemia de COVID-19, me percebendo e buscando ser uma pessoa mais caseira.

Uma parte da minha relação com a fotografia, principalmente de registro de paisagem deixou de se desenvolver nos últimos cinco anos. Na medida que eu pude eu busquei manter a minha relação com a fotografia refletida, principalmente através do uso de efeitos do tipo caleidoscópio, inicialmente pelo Instagram e depois através do recurso de edição do Photoscape.

Uma parte de mim vê com bons olhos a ruptura que a pandemia provocou na minha relação com a fotografia, principalmente porque me permitiu experimentar a fotografia de outras formas, e também porque eu acabei redescobrindo a minha relação com a imagem e com a fotografia através da collage artesanal.

Mas outra parte de mim ainda precisa acolher a fotografa que eu fui, e que eu ainda sou. Sinto falta de revisitar as minhas fotografias, uma coisa que eu perdi o hábito de fazer e que tenho custado a voltar a praticar. Assim como também seria bom voltar a fazer novas fotografias de registro de paisagens.

Eu declarei a minha paixão por fotografias refletidas publicamente em 2014, quando criei a página do Diário Refletido no Facebook. Àquela fora também uma declaração de amor a mim mesma, e só com o passar do tempo que eu fui compreendendo assim, reconhecendo e celebrando.

Amor próprio não cabia muito em mim por quase toda a minha vida, e começar a reconhecer as minhas fotografias e a mim mesmo como fotógrafa foi revolucionário, mas não foi suficiente para que eu aprendesse a dar valor a mim mesmo e ao que eu produzia independente da validação externa.

Em 2016, eu criei outra página, que refletia a minha paixão pelas minhas fotografias que foi a La Refletida, e através dela eu mendiguei atenção e reconhecimento as minhas fotografias até 2018.

Ironicamente, comecei a vestir as minhas fotografias em 2016, em paralelo eu descreditava de mim mesma cada vez que postava novas fotografias refletidas e pouco recebia curtidas ou comentários no Instagram e no Facebook.

Comecei 2021 separando algumas das poucas fotografias que havia criado em 2020 para uma convocatória de fotógrafas alagoanas, para a qual submeti o ensaio "Negativas" que foi rejeitado. E terminei este mesmo ano criando um livro de fotografias de bolso para outra convocatória, o qual também foi rejeitado.

Cogitei que este livro de bolso eu poderia decidir não engavetar e com a colaboração de Carol Almeida que voluntariamente revisou o texto que escrevi para o livro, o publiquei como e-book em 2022, "La Refletida - Livro de bolso".

A pedidos de minha mãe e minha tia, eu passei os últimos seis anos personalizando calendários para elas. Ano passado eu fui cumprir essa missão com antecedência (o que não foi o caso em alguns anos que eu só criei o calendário personalizado em janeiro) e me perguntei se não seria uma boa fazer alguns exemplares extras para vender.

Acreditei que seria um bom investimento e assim comprei seis calendários personalizados com as collages que criei em 2023 boa parte delas a partir da mediação que me propus a fazer nas edições da roda Afeto Collage (@afetocollage). 

Tive medo de me frustrar e não vender os calendários, mas o que vive foi na direção contrária do que temi. Pois não só foram comprados os seis calendários que eu confeccionei, como me senti incentivada a confeccionar mais alguns.

Não diria que consegui fortalecer a minha crença em mim mesma e o meu amor próprio a ponto de não me abalar quando o reconhecimento falta, quando me sinto desmerecida ou temo que as pessoas não se interessem pelas imagens que crio através da collage. Mas sei que aprendi a exercitar mais o amor próprio e a seguir renovando a minha busca por aprender a me amar mais a cada dia, assim como aprendi a me acolher e a buscar seguir me ensinando a me acolher dia sim e no outro também.

Passei o segundo semestre de 2023 sonhando em ver as minhas collages como adesivo, mas não encontrava como viabilizar isso, temia investir numa confecção terceirizada e me frustrar, tentei usar uma impressora emprestada e não consegui. Refleti quando 2024 começou o que eu desejava fazer para enfim viabilizar confeccionar as minhas imagens como adesivos e acabei arrumando coragem de me convencer que o jeito seria investir numa impressora.

É difícil dimensionar a realização que foi e que é poder imprimir as minhas collages, confeccionar elas como adesivos, eu já estou inclusive confeccionando ímãs de geladeira também.

Como eu achei que confeccionar ímãs era mais complexo do que realmente é, ainda cheguei a encomendar em fevereiro 100 ímãs numa empresa de recife, e me frustrei pesadamente. Pois além de não garantir um bom acabamento e preservar a cor das imagens, a empresa se quer chegou a reparar o que eu provei que precisava ser reparado.

Para curar e investir em não depender de terceiros, estou enfim imprimindo as imagens, colando nas mantas magnéticas, recortando e criando os meus ímãs. 

Tem sido prazeroso e fico muito grata em poder estar investindo em confeccionar produtos com imagens criadas por mim.

Mas ainda sinto que estou engatinhando na parte das vendas. Ao menos tenho conseguido me comprometer em persistir, mesmo me angustiando e me frustrando em estar gastando muito mais do que conseguindo compensar com as vendas.

quarta-feira, novembro 15, 2023

"Nós nascemos nus, e o resto é Drag"

"We're all born naked

And the rest is drag"

Trecho da letra da música "Born Naked" de Rupaul


"Nós nascemos nus, e o resto é Drag" é a tradução deste trecho da música "Born Naked" (Nascer nu, tradução livre) de Rupaul. Ru ou mamaRu para as pessoas íntimas ou fãs de DragRace, é segundo a wikipédia: "RuPaul Andre Charles (San Diego, 17 de novembro de 1960), mais conhecido como RuPaul ou Mãe das Drags, é um ator, drag queen, supermodelo, autor e cantor americano".


Eu não conhecia Rupaul ou seu trabalho, até começar a assistir Drag Race no final de 2016. O reality show de competição entre artistas drag americando, Rupaul's Drag Race teve sua primeira temporada em 2009, e eu só vi comentários sobre ele no feed do meu Facebook por volta de 2015. E via o que aparecia com desconfiança e preconceito pois eu fazia parte das pessoas que normalizam ter medo dar arte Drag ou de pessoas e iniciativas que desafiam a normalidade.


Até que me permiti acolher a minha curiosidade mais que o meu medo, e comecei a assistir a segunda temporada de Rupaul's Drag Race pela Netflix, quando vi não queria mais parar e assisti com prazer e gratidão todos os episódios das oito temporadas que lá estavam disponibilizados na época (de 2ª temporada a 9ª). E ainda fui atrás de ver os episódios da primeira temporada em outro canal.

Não apenas me tornei fã da arte Drag, fã de Rupaul, e pude aprender sobre criatividade e humanidade, mas principalmente passei a ter como referência gestos de vunerabilidade e de acolhimento de uma forma que ainda me parece desafiador encontrar na maior parte das vezes que os busco.

Eu perdi a conta de quantas temporadas eu vi nestes sete anos,  pois além de ter visto todas as temporadas da Rupaul's Drag Race que já está na 15ª, também vi todos os episódios das sete temporadas de All Stars. Sem falar das franquias: Rupaul's Drag Race UK, Drag Race Holanda, Rupaul's Drag Race Down Under, Canada's Drag Race, Drag Race França, Drag Race Espanha, Drag Race Itália, Drag Race Tailândia, Drag Race UK vs the world, RuPaul's Secret Celebrity Drag Race, Canada's Drag Race: Canada vs. the World e Drag Race México.

Acho que depois de observar a quantidade de franquias que eu assisti, entre as listadas acima, fica mais fácil de entender que é uma conta difícil de fechar.

Nos últimos anos foi semeando em mim um desejo de ver também uma franquia do Drag Race no Brasil, e enquanto ela não chegava eu fui vendo todos os realities Drags que tive acesso como Queen stars Brasil e Caravana das Drags. Achava massa quando via alguma artista Drag brasileira entre as participantes de alguma franquia do Drag Race, mas queria muito ver um Drag Race todo brasileiro.

Ano passado eu acompanhei outro novo reality Drag internacional chamado Queen of the universe, que tinha entre as participantes a cantora Drag brasileira Grag Queen, e eu vi incrédula a Grag não apenas chegar na final mas ser coroada Queen of the universe.

E este ano vi várias participantes Drags brasileiras nas franquias internacionais do Drag Race e vi que finalmente tb rolaria a primeira temporada do Drag Race Brasil. Assisti ansiosa o anúncio das queens, dos jurados, e acompanhei nos últimos três meses os doze episódios, colecionando fortes emoções e agradecendo muito em poder testemunhar e fazer parte da tão desejada e merecida celebração e visibilização da Drag brasileira dentro e fora do Drag Race.

Eu vibrei também com Queen stars Brasil e Caravana das Drags, mas deu para ver que o Drag Race segue se provando como um reality que sabe se diferenciar e que já acessa, conecta e abre muitos caminhos para as participantes das franquias pelo mundo, assim como também está abrindo para as Drags brasileiras.

Quando comecei a ver o Drag Race Brasil, pelo episódio de estreia que foi duplo, só se concluindo no segundo episódio, eu fiquei com um pouco de medo, senti como se a pressão colocada nas participantes de cara já parecesse maior do que as que eu vi que rolava nas demais franquias. Senti também um pouco de dificuldade com a apresentação de Grag Queen inicialmente. Mas confesso que no meio da temporada ou até já no terceiro ou quarto episódio, eu já estava fã do Drag Race Brasil, e me surpreendendo positivamente com a apresentação de Grag Queen.

Acredito que a seleção das participantes não se comprometeu em selecionar participantes de forma mais descentralizada, e espero que isso seja mais cuidado para uma próxima edição. Mas compreendo que foi uma seleção que me apresentou muitas artistas Drag talentosíssimas, que eu sou muito grata em poder continuar buscando acompanhar e celebrar, entre elas todas, as cariocas que foram as que mais demonstraram também vulnerabilidade e persistência.


Deixo aqui um reconhecimento também da importância de ver as Drags brasileiras negras representadas, e muito bem representadas tanto no Drag Race Brasil, quanto nos demais realities Drags brasileiros que já assisti, e dizer que cabe que haja ainda mais pessoas não brancas em todos o realities e em todos os lugares.


sexta-feira, setembro 22, 2023

Sobre persistir e desistir

Como você lida com a desistência? Você se permite desistir? Você acolhe quando outras pessoas desistem? 

Não sei quem me ensinou ou quantas vivências possam ter me dado o aprendizado de que eu não devia me dar a permissão de desistir, que eu tinha que me comprometer independente da situação em persistir.

Trago como exemplo a vivência que tive no meu primeiro emprego. Em 2008, após concluir a graduação em jornalismo, eu me senti perdida, e sem saber como procurar uma oportunidade de trabalho. Eis que um primo me chamou para trabalhar num site jurídico que ele queria criar, e eu fui trabalhar na Datalex recebendo um salário mínimo que na época era R$ 415,00 (nos primeiros seis meses sem a carteira assinada recebia metade disso).

Fui trabalhar porque era esse trabalho ou nenhum outro (porque eu me sentia incapaz de buscar e também porque só surgiu um outro convite enquanto eu estava lá). 

E foi assim que eu permaneci dois anos na Datalex, gerenciando o site Datajus, trabalhando como assessora de comunicação e gestora do site e suas redes sociais, e sendo remunerada como auxiliar de escritório. Foi uma oportunidade de aprendizado, que eu consegui potencializar, ao buscar fazer naquela época a especialização em Tecnologias Web para Negócios pelo Cesmac. 

Não considerava pedir demissão, mesmo que desejasse ir para outro emprego, mesmo quando comecei a ver surgir outra oportunidade de trabalho. Porque estava aprisionada entre a culpa e a gratidão. Equivocadamente eu acreditava que seria ingrata se pedisse demissão, e que estaria prejudicando o projeto também, além de deixar o primo que me deu aquela oportunidade na mão.

Belo foi o dia que o primo me comunicou que iria descontinuar o site, e me perguntou se eu desejava continuar na Datalex fazendo digitalização de publicações do Diário Oficial. Fiquei imensamente grata que ele tomou aquela decisão e que eu pude assim ter coragem de dizer que preferia não permanecer trabalhando na Datalex (lembro de dizer que preferia não continuar como se não me fosse permitido, com vergonha e culpa de querer me desistir).

Já estava contratada temporariamente em outra oportunidade de trabalho, que foi o que me deu coragem e algumas permissão. Conciliei por meses a permanência em ambas, por medo também de desistir de um emprego celetista (CLT) para uma prestação de serviço com data para terminar.

Passar dois anos e meio na Datalex foi persistir e desistir ao mesmo tempo. Persistir num trabalho que eu estranhava, mas me ensinou que eu era mais capaz do que eu reconhecia. E desistir porque eu não dava espaço para o meu desejo de estar em outro lugar fazendo algum outro trabalho em cultura ou enquanto comunicadora.

Parte da minha resistência de desistir do trabalho na Datalex tinha como combustível o medo, medo do desconhecido, de desagradar e de ser julgada.

Desistir ou ver alguém desistir é desconfortável, principalmente se o que esperamos de nós e das outras pessoas é que elas não se permitam desistir. Se a gente não se acolhe quando desiste é mais difícil que estejamos abertos para acolher a desistência de outra pessoa.

Tendemos a resistir a mudança, e a ver as ações como se elas definissem as pessoas. Eu me via como uma pessoa medrosa até dois anos atrás, porque eu era mais comprometida em sentir medo do que em cultivar a minha coragem. Mas principalmente porque eu acreditava que se eu sentia medo era porque eu não era corajosa. 

Aprendi que sou medrosa e corajosa, e que uma coisa não anula a outra. E a ver a desistência como uma possibilidade, como uma escolha saudável, como uma ação que pode ser acolhida quando eu sentir que preciso tomá-la. Ainda preciso me trabalhar mais para acolher tanto a minha desistência quando a desistência das outras pessoas.

Isso significa que eu desisti de persistir, não, isso significa que hoje eu posso dar espaço para que persistir seja mais possível, mais saudável, que não seja sempre uma obrigação ou a única opção; e principalmente, que posso me permitir ser quem sou, me dar espaço para me cuidar quando persisto e quando desisto.

quinta-feira, setembro 21, 2023

Poemas (des)bloqueados

 Autoria: Larissa Lisboa


Poesia Bloqueada

Entre a poesia e o teclado

há uma tela

cato poesia enquanto localizo vogais e consoantes

na busca em transformar dígitos em palavras

notificação: chegaram 5 e-mails

resisto, respiro, volto as vogais, consoantes, dígitos, palavras

para que o poema não me largue

notificação: 01 mensagem, 01 curtida, 05 atualizações de app disponíveis

esqueço o que estou fazendo  

várias janelas abrem na tela e na minha cabeça

notificação: poesia bloqueada


Poema Desbloqueado

Entre a poesia e a caneta não tropeço nas telas, fecho as janelas e ignoro as notificações

a caneta e o papel me dão o chão para exercitar voz, escuta, atenção e criação

e silenciar o que tente me afastar deles

me levam a desbloquear poemas

ressignificar preocupações

ao final do primeiro, segundo e terceiro versos

pode ainda me falta poesia

posso ainda estar descrente 

posso persistir ainda descrente 

escrever, reescrever versos frágeis e bloqueados

posso escrever sobre bloqueios e desbloquear

ler, reler, reescrever, rasurar e reescrever

poemas (des)bloqueados


Escrito e reescrito em 21/09/2023

quarta-feira, julho 05, 2023

Era o meu pai

Recebi uma ligação de minha mãe, em 03 de setembro de 2003, me dizendo que meu pai estava no hospital que ele ia precisar fazer uns exames, a minha resposta ao receber essa informação foi "Graças a Deus!". Minha reação foi destoante da que minha mãe esperava, mas coerente com a perspectiva de que ver meu pai fazer exames significava um cuidado preventivo para mim. Também com o fato de que ela me disse apenas uma parte do que de fato havia acontecido. 

Foi só na ligação seguinte que recebi, que minha Tia então me disse que meu pai havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral e corria risco de vida.

Podia ser, mas não foi a primeira vez que eu parei para refletir sobre a vida e a morte. 

Declarada ou disfarçadamente a morte se fez presente na minha família desde que eu me lembro, pois com menos de dois anos (1 ano e 10 meses) eu compreendi que a minha avó materna havia deixado de ser uma presença, e passei a conviver com a ausência dela.

(A ausência de minha avó materna é a dor mais constante que conheço, e ainda assim me falta condições de dimensioná-la.)

Já a minha primeira memória fúnebre, foi deflagrada pela partida de minha bisavó materna em 21 de abril de 1994 (8 anos era a minha idade). Tenho escassas lembranças dela o que possivelmente justifica ter lidado com tranquilidade com a partida e ausência dela, ausência que não tenho como uma dor constante.

Aquele dia, em que meu pai teve o AVC, há quase vinte anos atrás, me fez refletir, ao saber que o meu pai estava entre a vida e a morte, eu me questionei se era melhor que ele vivesse ou morresse.

Cogitar que o meu pai poderia morrer não me parecia proibido, nem tão assustador quanto deveria ser (dentro da perspectiva que eu ainda estava descristalizando a imagem de pai herói), talvez inconscientemente eu já soubesse que meu pai era alguém que colecionava várias vidas e mortes.

Uma coleção que eu passei a reconhecer a partir daquele que foi o primeiro AVC que ele teve, a vida que ali se criou ele resistia em reconhecer porque deixou de ser a vida que ele tinha, e a morte podia ser reconhecida apenas por mim, embora aquela tenha sido apenas uma das vezes que parte de quem ele era deixou de existir.

Se eu já havia observado antes do AVC que a relação que eu tinha com o meu pai não era muito diferente da relação que eu tinha com qualquer outra pessoa que eu mal conhecia, após o AVC eu tive menos ainda opção de conhecê-lo ou de me relacionar com ele.

Ele viveu uma reinvenção de si, viveu uma "recuperação", viveu também uma intensa jornada de autodestruição e desamor próprio. Poderia ser facilmente reduzido a menção de que ele poderia estar num processo de depressão, que ele se negou a cuidar.

E para mim ele morreu, morreu o pai herói, o pai que eu achava que me ouvia e que eu desejei conhecer. Falar que ele morreu também é uma forma diferente de dizer que ele foi um dia após o outro violentando o que eu entendia como vivência, a ponto de viver com medo e com raiva do que eu via e vivia dentro da minha própria casa.

Meu pai queria que eu o ouvisse e falasse com ele, e eu dei a ele em retorno o silêncio. 

Como poderia uma adolescente de 19 anos saber que um adulto de 58 anos agiria como se ela tivesse morrido para ele, por ter dado a ele o silêncio? 

Um outro dia qualquer ele decidiu partir para outra casa, e fazer a minha mãe passar por um processo de divórcio como uma mãe que merecesse ser punida pela justiça - felizmente a justiça não concordou com ele.

Como uma filha que deixou de ser filha, eu atendi algumas ligações nos anos seguintes que eram para o meu irmão ou para minha mãe, como se eu fosse apenas qualquer pessoa atendendo a ligação que aquele pai e ex-marido fazia.

Para o meu pai eu voltei a ser "filha" em 2009, mas foi um retorno do que não teve mesmo um retorno. Ele me procurou, e me deixou saber que não o fez por conta própria mas porque a sua mãe havia lhe estimulado. 

Eu fui ao retorno do que não havia retorno, encontrar um homem que continuava sem saber ser um pai que ouve ou um pai que se reconhecesse e pudesse se conhecer. Um homem que acreditou que se me fizesse ir ao encontro dele dizendo que me daria um presente me faria reconectar com ele.

Um homem que eu passei dias, meses e anos para me libertar.

Eu ainda o vi duas vezes na última década, na última ele quis o meu perdão e eu o dei. 

Se tivessem me permitido eu poderia ter ido vê-lo no cemitério, mas como uma filha que deixara de ser o que jamais um filho deixa de ser, ficou então a não derradeira despedida daquele que era o meu pai.

segunda-feira, outubro 17, 2022

Como não se resumir aos seus erros?

Como não se resumir aos seus erros? Confesso que é mais fácil responder a essa pergunta na teoria, e principalmente se a pessoa não estiver lidando com as consequência de um erro recente (o que não é o meu caso). E reconheço que não há uma única resposta para essa questão, assim como corroboro com outras vozes que já me ensinaram e ensinam que é preciso ter responsabilidade sobre as nossas ações, e isso não se resume a assumir os erros e pedir desculpas.

Sei que quando eu erro, principalmente em público eu posso estar fazendo um desserviço e corroborando com exemplos que eu luto para desconstruir e não desejo seguir. E que ao me desculpar no momento e o quanto for necessário, eu estou fazendo apenas o mínimo. Portanto, procuro também me abrir e me manter aberta a entender como eu posso aprender quando eu erro.

É doloroso assumir em qualquer medida que erramos, mais ainda se faltar autocompaixão e compaixão em geral. Principalmente porque vivemos numa sociedade punitivista, e há mais estímulos para nos blindarmos e não enxergarmos nossos erros, do que para que nos permitamos a considerá-los possíveis de serem praticados por nós, e acolhidos por nós e pelas outras pessoas.

Apesar de me lembrar e de ser lembrada quase cotidianamente que eu erro, eu também consigo me blindar e custar a enxergar que estou errando (que foi o caso). E foi assim que eu tive a atitude de interromper repetidas vezes a apresentação de uma pesquisa num evento recente que participei na minha cidade. Custei a me dar conta que estava errando e incomodando. Fiquei também sem condições de me desculpar no momento, mas procurei ao final parte das pessoas que estavam na apresentação e me desculpei. E seguirei me desculpando. (Caso você tenha estado presente naquele momento, eu também lhe devo desculpas por ter interrompido o fluxo da apresentação da pesquisa.)

Dando sequência ao processo de me responsabilizar pelos meus erros, identifico duas instâncias/etapas a pessoal, que implica em como errar adiciona ao meu processo de autoconhecimento, e a pública que implica no compromisso de aprender a não repetir o erro e que se possível permitir que ele me guie a reparar o que eu provoquei e/ou me impulsione/guie a somar/construir.

Como aprendi que não posso cuidar das outras pessoas se eu não estiver bem. Então eu busco me lembrar que o que me cabe primeiro é cuidar de mim. E o primeiro passo nesse caminho é dar espaço para os meus erros e me dar autocompaixão (principalmente quando se negarem a me dar). Também nesse primeiro passo cabe buscar reconhecer a vergonha que senti ao me dar conta que errei - que continuará sendo alimentada no processo de responsabilização do erro. Vergonha que eu aprendi a desenvolver resiliência usando como ferramenta a minha percepção para identificar quem me dá empatia e me acolhe se eu acerto ou erro, e me conectando para falar sobre a vivência, como eu me senti, encarando e assumindo que foi constrangedor para mim e para as outras pessoas também.

Outra ferramenta preciosa para o meu autocuidado é ler livros, seja os que me impulsionam a me cuidar e investigar os meus sentimentos, ou no caso específico ler o “Pequeno Manual Antirracista” de Djamila Ribeiro e me dispor a me debruçar sobre ele e estudá-lo.

Outra camada nesse processo é silenciar a impostora, o que se torna ainda mais difícil após errar (e ainda mais quando somos julgadas ou ao imaginar o quanto podem estar nos julgando). Diria até que eu ainda preciso aprender a “silenciar” a minha - porque a bichinha fala viu. Na prática de fato o que eu consigo fazer é me lembrar que eu sou digna, que eu sou capaz, que errar é uma parte da minha vivência humana, que os meus erros não me resumem e nem me definem, que eu não mereço ser desmerecida porque errei e nem julgada, resumida ou invisibilizada.

Quando eu escrevo assim, pode até soar que é simples, ou até mesmo parecer que eu sou forte, ou que eu sempre fui assim. Não é simples, eu tenho força, mas isso não apaga o quando eu sou emotiva e sinto dor, e eu não fui sempre assim.

Abro aqui um parêntese para reconhecer que eu trabalhei e trabalho para c****** para fortalecer a minha autoestima, e ainda estou no processo de aprender que a minha autoestima não é a minha prioridade e sim a autocompaixão. Na prática isso implica que não é sobre ser forte ou provar o quanto eu sou forte, é sobre dar espaço para forças e vulnerabilidades, acolher a mim e as outras pessoas.

Parte também do processo de encarar e dialogar com a minha impostora, implica também em não dar força aos julgamentos das outras pessoas, custei a aprender que não é saudável dar espaço a qualquer crítica, e como saber se é uma crítica mais destrutiva do que construtiva, um indicativo é observar se aquilo que está sendo dito é dito com objetivo de construir contigo ou não; se você está sendo reconhecida como uma pessoa aliada ou como uma pessoa qualquer. Observar também se há espaço para diálogo, pela forma como a sua resposta a crítica for recebida, até mesmo se há espaço para a resposta que você quiser oferecer.

Sigo sendo uma pessoa muito crítica, mas ainda preciso aprender muito a diferença entre crítica e feedback, assim como preciso ainda aprender a acolher qualquer diálogo que seja provocado pelas minhas ações, desde que ele não me desmereça, que de fato dê sinais de escuta e acolhimento, não me diminua ou oprima.

Sou uma pessoa capaz de diminuir ou oprimir como qualquer outra, ainda mais porque sou uma mulher branca privilegiada, e busco aprender cotidianamente sobre o que me machuca e machuca as outras pessoas justamente para evitar quando possível ser invasiva e descuidada. E também estar atenta e na escuta para considerar e me frear a qualquer sinal de que eu esteja passando dos limites das outras pessoas.

Contudo, isso não me impediu de ser invasiva, intransigente e descuidada no meu erro público recente. E diante do acontecido eu precisei me lembrar, e também venho aqui para lembrar a quem mais precisar que eu não sou os meus erros. Reforço também para mim mesma que eu não preciso provar isso para mais ninguém, apenas para mim mesma.

E de fato eu não vim aqui provar para ninguém, vim aqui fazer uso de mais uma ferramenta de autoconhecimento que é escrever, que poderia ser só para mim, contudo dentro do caminho que eu já construí e que eu desejo continuar construindo, o compartilhamento é um investimento em mim mesma e além de mim.

Quando você para e considera a facilidade com que você é julgade e resumide, como você se sente? Eu me sinto derrotada, mais do que pelas outras pessoas até, derrotada por mim mesma. Então para chegar na instância pública, que eu posso considerar alcançar mesmo quando não cometer um erro público, muitas vezes chego derrotista, mas chego, quando consigo. Mas também posso chegar lá esperançosa, porque eu não sou só uma coisa.

Perceber que as pessoas persistem, buscam se superar e realizar coisas que não sejam para elas mesmas, me faz ver esperança, em meio as derrotas. Mesmo que no caminho, durante e depois as pessoas reclamem e tenham posturas que podem ser resumidas como “derrotistas”, não é justo resumir quem se dedica e quem busca trabalhar por conta própria (ou não) para fazer ações além de si, a qualquer coisa que resuma as nuances do que é feito e vivido.

O fato é que com ou sem julgamento, ou com ou sem derrota, eu sigo escutando as vozes externas e a minha voz interna que me impulsionam a persistir, por mim mesma, porque eu sei hoje, mais que antes, o que eu sou capaz, e que se eu não falar, fizer, não tem quem fale ou faça por mim, ou como só eu faço e posso fazer.

É natural ter medo após um erro (público ou não) de dar um próximo passo, e errar de novo, pois não há garantias de que aprendemos, muito menos de que não erraremos de novo. Cabe entender o seu tempo, assim como o que funciona para você. Entre as ações e ferramentas que identifico e uso para me fortalecer e me responsabilizar publicamente estão algumas que já mencionei, que menciono a seguir e que eu posso ainda vir a conhecer. Reconhecer o erro repetidamente; escolher lembrar do erro, se não for muito doloroso; observar a si mesma; observar e estar atenta para não interromper ou interferir de forma inconveniente e incomoda; procurar a opinião de pessoas que sejam compassivas e dispostas a dar feedbacks quando estiver insegura sobre alguma atitude, ideia ou proposta; buscar persistir pesquisando e estudando; caso haja ou identifique uma forma ou várias de reparação, se disponibilizar a reparar; refletir sobre como pode colaborar coletivamente, e se propor a colaborar.

segunda-feira, outubro 10, 2022

Você não é os seus erros

Como muitas pessoas fui criada, educada e sou constantemente estimulada a não errar. Se na vida pessoal isso me pesava, no trabalho que realizei entre 2012 e 2020 no Sesc Alagoas, isso me aterrorizava o tempo todo. Vivi 36 anos comprometida com o medo, a insegurança e a síndrome da impostora, sem perceber o quanto estava fechada para diferentes estímulos que tentassem me dizer que essa não era a melhor e nem a única opção. E sujeita aos diálogos que me propunham romper com a minha visão "pessimista", mas efetivamente incapaz de elaborar e contextualizar que não era o "pessimismo" que me limitava. 

Para ilustrar o nível do meu compromisso em me autocondenar e me autojulgar, certa vez coloquei em um cartaz o número do telefone da minha casa no lugar do telefone da unidade que trabalhava, ao me tocar disso um mês depois de distribuir o cartaz me senti incompetente, e carreguei vergonha por conta disso por um bom tempo, como tantas outras vergonhas das quais me tornei colecionadora.

Independente do tamanho do erro, como na rotina de trabalho eles estavam sempre sendo combatidos e silenciados, parecia só me caber me dizer que eu não era merecedora de ser vista pelos acertos, e eu me dizia que o meu valor era medido a partir do quanto eu era uma pessoa capaz de não errar ou de esconder muito bem os erros. Como também quanto eu era uma pessoa capaz de calar e de caber, o que eu pouco me achava capaz, e nem o queria fazer, mas me obrigava a ser capaz.

Era visível para as pessoas que eu tinha dificuldade de receber elogios, e que eu me autocondenava com frequência (o que ainda estou desaprendendo), mas a questão era muito mais profunda, eu me via como uma pessoa indigna de atuar como analista de audiovisual do Sesc Alagoas. 

Na terapia que fiz entre 2013 e 2017, criei um espaço seguro para as minhas inseguranças, meus medos, e para fortalecer e desenvolver a minha inteligência emocional, para lidar com a síndrome da impostora, com os sentimentos que as pressões vindas da instituição me causavam e como eles reforçavam os meus gatilhos e a minha autocrítica. Tinha assim um espaço para extravasar os meus sentimentos sem qualquer preocupação se eles estariam equivocados ou se caberiam. No qual recebi acolhimento e fui estimulada a acolher os meus erros,  e processar a minha limitação em me libertar das frustrações que colecionava comigo, com outras as pessoas e com o trabalho. Contudo o que conseguia trabalhar na terapia não dava conta de tudo que eu precisava fortalecer para me descomprometer com o medo, a insegurança e a síndrome da impostora.

A primeira oportunidade para me descomprometer com o medo veio em meio a pandemia em 2020, quando compreendi que estar como funcionária do Sesc Alagoas estava comprometendo ainda mais a minha saúde mental, o que também teve espaço seguro em meio ao meu retorno a terapia. 

Enfim, para me autocuidar, eu me permiti ouvir o medo por um outro viés, pois passei a temer adoecer pela obrigação de seguir com o trabalho que realizava até então. Foi quando escolhi iniciar o processo de romper o meu compromisso com os medos que tinham me feito normalizar tanta coisa que eu me submeti para caber naquele trabalho e na vida até ali.

Fui alertada, incansáveis vezes, a ter cuidado para não prejudicar a minha saúde por ser alguém que reclamava e falava sobre o que sentia - que era visto como uma atitude pessimista e derrotista para muitas pessoas que assim me reduziam-, no entanto, por mais que esses alertas tenham vindo com um ar de cuidado, hoje eu sei que isso também me estimulava a me moldar e a me silenciar, e que tem mais ligação com a necessidade de controlar o comportamento da outra pessoa do que é de fato um cuidado. 

Faz pouco mais de um ano que a minha percepção/análise sobre mim e sobre a minha relação com as pessoas e os trabalhos que tive e tenho, foi acolhida, empoderada, e ressignificada pelo meu encontro com o trabalho da pesquisadora norte americana Brené Brown, que identificou em sua pesquisa que o silêncio fortalece as vergonhas, e que uma ferramentas que contribuem para desenvolver a resiliência à vergonha é falar sobre ela com alguém que tenha conquistado a sua confiança.

Aprendi e me comprometi a voltar as obras de Brené - além de ir atrás de outras pessoas pesquisadoras-, na busca por seguir exercitando o meu comprometimento com o meu autocuidado, que implica em dar espaço ao que eu sinto, me responsabilizar pelo que sinto e faço, exercitar a autocompaixão e ser mais compassiva, acolher os meus medos, renovar sempre que possível meu compromisso com a coragem, não me anestesiar e nem deixar a impostora me aprisionar, entre outras coisas.

Pude me abrir para os meu sentimentos mais do que nunca, além de expandir também o meu compromisso com a curiosidade sobre o autoconhecimento, autocompaixão, empatia, e me senti capaz de investigar de forma mais ampla caminhos mais comprometidos com a minha saúde mental. 

Entendi não só que podia errar, e que isso não deveria me definir, como também que não deveria deixar que as outras pessoas me definissem pelos meus erros. E ainda me trabalho para me descomprometer com o perfeccionismo, algo que eu sempre busquei me distanciar, mas que ainda se faz presente pelo temor que encaro ao me propor a fazer, estar ou atuar nas pesquisas e trabalhos que desenvolvo, ou apenas ser autêntica.

Antes de acreditar que eu era capaz de me descomprometer com a prática de julgar as outras pessoas e me autojulgar, eu me comprometi com a empatia, que implicava em buscar me conectar com as pessoas, com escuta ativa, evitando julgamento, algo muito distante do que eu era obrigada a fazer ou conviver para caber no padrão da simpatia. Ao priorizar a empatia, ia exercitando frear os julgamentos.

Brené bem alertou que me comprometer com os resultados da pesquisa dela dava trabalho, incomodava as outras pessoas e dava vontade de desistir, ao mesmo tempo que possibilitava reconhecer que estamos amando e vivendo de todo coração e desejando persistir. Nas palavras dela:

"Optar por amar e viver de todo coração é um desafio. Você vai confundir, irritar e aterrorizar muita gente, inclusive a si mesmo(a). Em um minuto vai rezar para que a transformação pare e, no minuto seguinte, vai rezar para que nunca termine. Você também vai se perguntar como é possível sentir tanta coragem e tanto medo ao mesmo tempo. Pelo menos é assim que me sinto na maior parte do tempo… corajosa, apavorada e muito, muito viva." Trecho do livro "A Arte da Imperfeição" de Brené Brown.

Sei que é um processo diário, e que ainda preciso aprender a não me autojulgar, algo que fica perceptível quando estou falando com outras pessoas e recorro a apontar meus erros e meus limites incansavelmente. Como alento me apoio noutro trecho do livro A Arte da Imperfeição que precisei reler e transcrever para conseguir assimilar, e graças ao qual carrego na minha mente a imagem de uma clareira que tenho sido capaz de criar para me acolher.

 “Quietude não é nos concentrarmos no nada; trata-se de criarmos uma clareira. É abrirmos um espaço afetivamente desobstruído e nos permitirmos sentir, pensar, sonhar e questionar.
(...)
Se fizermos uma pausa por tempo suficiente para criar uma clareira emocional serena, as verdades de nossa vida invariavelmente nos alcançarão. Nós nos convencemos de que, se nos mantivermos ocupados e continuarmos em movimento, a realidade não nos atingirá. Assim, a verdade que aparece para nós é como às vezes nos sentimos cansados, amedrontados, confusos e sobrecarregados. Naturalmente, a ironia disso é que o que nos deixa esgotados é justamente a tentativa de ignorarmos a sensação de esgotamento. É esse o caráter autoperpetuador da ansiedade. Ela se alimenta de si mesma.”

sábado, outubro 08, 2022

Eu, as minhas artistas e a vergonha

Pode ser que nunca tenham me dito: "hidrocor (ou caneta colorida) é coisa de criança", mas também pode ser que tenham. Carreguei essa impressão/afirmação comigo até meus 36 anos quando dela me libertei para (re)encontrar a minha artista, uma das quais eu mais neguei, a ilustradora. 

Negar a minha artista foi o que mais fui ensinada e me auto ensinei, por medo, vergonha, frustração e síndrome da impostora. Quis ser instrumentista, dançar, cantar. Mas onde primeiro me senti capaz foi na ilustração como muitas crianças, mas me convenci ao me comparar com outras crianças que ilustravam com mais desenvoltura e detalhes de que jamais seria ilustradora, a ponto de esquecer que ela habitava em mim. 

Na adolescência me senti capaz de criar poesias, poemas, contos, letras de música, mas também acabei me convencendo de que não era boa o suficiente para ser escritora. Ao ingressar na faculdade e ter contato com câmeras digitais quis acreditar que podia ser fotógrafa, poderia facilmente ter me convencido que também fotógrafa não podia ser, mas como eu não conseguia deixar de fotografar (entre a paixão e o vício), tive pela primeira vez que criar coragem para reconhecer uma de minhas artistas e me proclamar fotógrafa - mesmo me encolhendo ao fazê-lo e temendo constantemente ser desmascarada. A fotógrafa também empoderou a diretora audiovisual, que morria de medo de se reconhecer como qualquer uma desses cargos.

Não era viável ser artista, ao ousar cogitar ser uma das minhas artistas logo me perguntariam como eu iria me sustentar, e diante do insuportável constrangimento de não poder pagar as contas com imagens fixas ou em movimento, a avassaladora vergonha silenciava as minhas artistas/artes, e eu escondia até de mim mesma que era artista, e reduzia as minhas criações a esboços. 

Até que eu me permiti criar uma comunidade fotográfica no Facebook (Diário Refletido, 2014), e me provei sem querer que era capaz de persistir na minha relação com a arte. Dessa persistência eu colhi, alegrias e frustrações. A alegria de poder me declarar apaixonada por fotografar reflexos, de construir um acervo com uma década de fotografias, de construir inúmeras propostas de fotolivros, ensaios e uma única de exposição. De me permitir ser fotógrafa independente de não cumprir as exigências para excelência segundo o mercado ou os padrões profissionais. 

Já entre as frustrações colhidas, eu me senti incansavelmente ignorada, e esperei demais por reconhecimentos externos (mais do que seria saudável inclusive). Perdi muito tempo com dificuldade de digerir algumas negativas que recebi, principalmente a da única vez que submeti uma proposta de exposição. Aos poucos fui buscando acreditar que eu era capaz de responder as negativas de forma mais construtiva, compreendendo que me cabia visibilizar o que estava sendo invisibilizado pelas pessoas que não me escolhiam, aprovavam ou convidavam.

Não deixou de ser doloroso procurar oportunidades e não obtê-las, mas aprendi que para processar essas dores o quanto é precioso dar espaço a tristeza e ao luto que aflora quando as minhas expectativas não são atendidas; também a me (re)ensinar sempre que necessário que o meu valor não pode ser medido pelo reconhecimento ou pela ausência de reconhecimento externo. O meu valor só pode ser dimensionado e reconhecido por mim mesma.

Um aprendizado que também me empoderou como artista e como instrutora de ações formativas, e me guiou para construir a oficina e o Lab Curadoria de si, pelo desejo de aprender e de compartilhar aprendizado sobre processos artísticos, caminhos do autoconhecimento, da investigação dos nosso sentimentos (segundo a pesquisadora Brené Brown), e também da resiliência à vergonha.

Quanto ao hidrocor, estou mais que nunca colecionadora de hidrocores e canetas coloridas e tenho me permitido usar e abusar deles para desenhar sempre que me dá vontade. Crio para mim e também crio estampas para personalizar artigos que são confeccionados pela Estampa Pop ou pelo Colab55.

terça-feira, setembro 27, 2022

sábado, setembro 10, 2022

Mais autocompaixão

Me rodeio de estímulo para que eu me ame mais, há alguns anos, no entanto, esse caminho não estava bem traçado, nem bem reconhecido. Sim, falamos sobre amor próprio e autoestima, mas pouco nos apronfudamos sobre o que acontece quando ambos estão desequilibrados, seja para mais ou para menos. 

Alguns podem afirmar: "Como assim? Já vivo cansade de ouvir as pessoas falando sobre si mesmas e vangloriando suas autoestimas.", o que não destoa do que estou afirmando, não é volume de conteúdo sobre um assunto que comprova o aprofundamento com que nos voltamos para este.

Aprofundamento implica em ter acesso a conteúdos que nos permitam assimilar o que estudos e pesquisas reuniram sobre amor próprio e autoestima. Assim como implica que estejamos comprometidos com a conexão, coragem, vulnerabilidade e empatia, cientes do que isso significa, não apenas com base no conceito dos dicionários ou sociais, mas nos conceitos alcançados pelas ciências humanas.

Nos conectamos profundamente enquanto escondemos a nossa vulnerabilidade? Acessamos nossa coragem sem acessar nossa vulnerabilidade? Como funciona a conexão sem a empatia? E o que muda quando nos conectamos com empatia e coragem? 

Fui ensinada a me ver como uma pessoa covarde e frágil, uma vez que não era tão corajosa como as pessoas que naturalizavam muitas situações que me amedrontavam (entre elas os confrontos e conflitos), e porque não era muito hábil em esconder as minhas emoções (em especial o riso e o choro). Somava também que eu me guiava pela lógica de que se eu agia covardemente então eu não podia ser corajosa, e que se eu não escondia a minha vulnerabilidade então eu era vulnerável, e isso era ruim e condenável.

Também somava que o meu amor próprio e minha autoestima eram dependentes das outras pessoas, o que eu só consegui reconhecer e confrontar quando mergulhei nas pesquisas que Brené Brown difunde em seus livros. Se eu buscava permissão, então foi isso que eu consegui através da leitura dos livros de Brown, permissão de ser/estar covarde e corajosa, e de ser/estar vulnerável, sem isso implicar em ser/estar frágil ou condenada.

Carregava pesos, que me faziam me amar menos e acreditar que a minha estima era naturalmente baixa, e por isso só me cabia ser uma pessoa com baixa estima, já que eu não era merecedora de sucesso segundo os impiedosos padrões sociais.

Parte do que me faz retornar e escrever sobre autorreconhecimento é para desaguar o que aprendi e pela busca de seguir aprendendo. Todo dia recebo estímulos para focar em mim e para não focar em mim, e preciso escolher em que medida vou focar em mim e não vou. A pandemia me possibilitou focar mais em mim, estudar sobre sentimentos e aprender a investigar mais o que sinto, foi um aprendizado que escolhi aprofundar a ponto de levar como compromisso.

Você sabe o que acontece quando as pessoas se comprometem com o autorreconhecimento, autocuidado e com a autocompaixão?

É o que eu tenho buscado descobrir. E pode bater a crise de impostor ou síndrome de impostor, inclusive aqui enquanto escrevo: "poxa, será que vão achar que eu estou estimulando às pessoas a serem autocentradas e egoístas?". E aí eu me lembro que é justamente porque eu não consigo me descomprometer com a forma como as outras pessoas podem receber, sentir ou perceber as minhas escolhas, que eu não estou autocentrada, nem sendo egoísta, eu sigo buscando me amar para poder desaguar mais amor no mundo.  

Para ser compassiva com as outras pessoas, preciso primeiro ser mais autocompassiva comigo mesma. E digo isso não só para as pessoas que lerem, mas para mim mesma, preciso lembrar disso frequentemente.

sexta-feira, setembro 02, 2022

Inscrições abertas para a Curadoria de Si versão Lab

Na versão Lab, a Curadoria de Si, será composta por seis encontros on-line, ministrados pela pesquisadora alagoana Larissa Lisboa, com objetivo de dialogar sobre processos de cuidadoria e curadoria junto a exercícios de curadoria individuais e coletivos.

Lab Curadoria de si, é uma ação formativa livre, com duração de 15 horas, que visa acolher pessoas que buscam estímulo para persistir apresentando suas obras a editais, eventos e outros, e que desejam exercitar construções de curadorias.

O primeiro encontro do Lab será composto por reflexões sobre autoconhecimento, processo criativo e curatorial, do segundo ao sexto encontro o foco será em processos: focados em fotografia, em audiovisual, em composição de portfólio, na construção de curadoria individual e coletiva.

Serão ofertadas 15 vagas mediante inscrição e pagamento de um dos valores conscientes propostos como taxa da oficina até 20/09. Também serão oferecidas cinco bolsas gratuitas, além das vagas pagas, destinadas prioritariamente a dar acesso gratuito a mulheres não brancas, pessoas não binárias, pessoas trans ou travestis, para as quais as inscrições serão encerradas em 16/09.

Dias: 20 e 27/09, 04, 11, 18 e 25/10 das 19:00 às 21:30 (aulas on-line).
Vagas: 15 + 5 bolsas gratuitas
Prazo de inscrição: valor consciente até 20/09 e bolsas gratuitas até 16/09
Valores conscientes: R$ 240,00 (social), R$ 360,00 (colaborativo)
Pix: larislisboa@gmail.com

Sobre Larissa Lisboa

Artista visual, idealizadora e gestora do Alagoar, compõe a equipe do podcast Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. É diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, como instrutora de oficinas em audiovisual e parecerista de editais. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 a 2020).





terça-feira, julho 05, 2022

Nova turma da Oficina on-line "Curadoria de si" com Larissa Lisboa

A oficina on-line Curadoria de Si, ministrada pela pesquisadora alagoana Larissa Lisboa, está com inscrições abertas (pelo formulário) mediante colaboração consciente até 20/07 para realização de sua segunda turma, que será realizada nos dias 20 e 27/07 das 19:00 às 21:30


Curadoria de si, é uma ação formativa livre, que surgiu do desejo de proporcionar   acolhimento para as pessoas que buscam estímulo para persistir apresentando suas obras a editais, eventos e outros. Propõe reflexões a partir da questão “Qual a curadoria e cuidadoria faço de mim?”, apresentando processos para estimular e inspirar processos, incentivar o reconhecimento de possibilidades e distribuir referências e aprendizados.


Nesta segunda edição/turma a oficina on-line será composta por dois encontros (totalizando 5 horas), o primeiro com foco nas reflexões sobre autoconhecimento, processo criativo e curatorial, e o segundo com foco em composição de portfólio a partir das obras criadas por Larissa Lisboa (esboços de fotolivros, séries fotográficas e filmes).


Serão ofertadas 20 vagas mediante pagamento de um dos valores conscientes propostos como taxa da oficina. Também serão oferecidas duas bolsas gratuitas, além das vinte vagas, destinadas a dar acesso gratuito a pessoas trans ou travestis, para as quais as inscrições serão encerradas em 18/07. 


Dias: 20 e 27/07 das 19:00 às 21:30 (aulas on-line). 

Vagas: 20 + 2 bolsas gratuitas para pessoas trans e/ou travestis

Prazo de inscrição: valor consciente até 20/07 - bolsas gratuitas até 18/07 - formulário

Valores conscientes: R$ 60,00 (social) e R$ 90,00 (colaborativo)

Pix: larislisboa@gmail.com


Sobre Larissa Lisboa


Artista visual, idealizadora e gestora do Alagoar, compõe a equipe do podcast Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. É diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, como instrutora de oficinas em audiovisual e parecerista de editais. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 a 2020).



terça-feira, junho 21, 2022

Refletida - Livro de Bolso (autoria: Larissa Lisboa)

A escrita foi meu primeiro espaço de encontro com meu eu artístico. Me quis poeta, mas logo aprendi que o que eu fazia não era poesia. Nesse descompasso entre o que eu queria e o que eu podia fazer, tive meu primeiro bloqueio artístico, e desacreditei que eu tinha direito de criar a poesia como eu bem entendesse.
O meu então segundo espaço de encontro com meu eu artístico foi a fotografia. E eu me quis poeta das imagens, poeta do encontro das palavras com as imagens e autora de livros de fotografia. O querer seguiu sendo bombardeado por todos os lados por mim e por todas as pregações do que deve ou não ter reconhecimento e valor artístico, mas fui pavimentando caminhos para encarar e superar bloqueios e não desacreditar por inteiro de que eu podia criar poesia com as imagens.

A pilha de fotolivros submetidos a convocatórias e negados pode não compor mais que uma dezena de títulos, mas dimensiona a capacidade que ficou escondida e perigando seguir desacreditada por falta de oportunidade. 

Várias vezes defini oportunidade, como uma ação que estaria atrelada a ter uma criação minha escolhida por terceiros, por alguma iniciativa oferecesse financiamento e/ou reconhecimento. Mas também me permiti em outro momentos defini oportunidade como uma ação minha de buscar criar o que eu não encontrava no mundo.

E foi em mais um gesto de dar conta de me dar o que me seguia sendo negado que eu decidi autopublicar um fotolivro, "Refletida - Livro de Bolso" (https://issuu.com/larefletida/docs/refletida_-_livro_de_bolso_isuu). Essa ideia me veio como consolo, pois eu estava mais uma vez criando um fotolivro para uma convocatória e não queria que ele ficasse empilhado junto aos demais fotolivros que esbocei e engavetei.

E apesar de ter a noção que poderia ser simples autopublicar, a minha insegurança somou para que não fosse, empaquei está autopublicação por algum tempo enquanto lutava comigo mesma para me permitir dar esse passo, que eu sabia que era um investimento em mim mesma também.

Reuni em "Refletida - Livro de Bolso" ilustrações que fiz durante 2021 em meio a pandemia de covid-19 e fotografias que fiz antes da pandemia, mas que editei em meio a construção deste fotolivro. Utilizei para construir a versão que apresento de quase todas a imagens o aplicativo mirror do Instagram - na opção que simula um caleidoscópio, pois caleidoscopiar foi o que me estimulou a seguir fotografando. Caleidoscopiar foi também o que me entusiasmou a revelar as minhas ilustrações através do efeito caleidoscopico.

A parte mais prazerosa foi definir quantas e quais imagens estariam em "Refletida", optei por compor dez duplas, utilizando 20 páginas do limite de 30 que a convocatória propôs. E a parte mais desafiadora seguiu sendo escrever sobre o processo e mais ainda sobre as imagens escolhidas (o que eu ainda fujo de fazer diretamente).

Para falar brevemente sobre como resolvi o bloqueio que me surgiu por não conseguir escolher qual seria a capa deste fotolivro. Testei imaginar se poderia ser alguma imagem que eu já tivesse criado em 2021 ou algo que eu desejasse imaginar, mas não funcionou. Depois de meses de indefinição, me lembrei deste experimento que comecei há fazer mais recente de acumular traços e percebi que eu finalmente sabia qual a capa que eu queria criar.


Tive a colaboração de Carol Almeida Ribeiro para revisão do texto, a quem sou imensamente grata.

"Refletida - Livro de Bolso" pode ser visualizado pelo ISSUU onde está em formato página dupla, e também pode ser baixado ou visualizado pelo drive em formato página única.


segunda-feira, maio 23, 2022

Páginas (Matinais) Diárias

 "Para recuperar sua criatividade, você primeiro precisa encontrá-la. Peço que faça isso através de um processo aparentemente sem propósito que chamo de páginas matinais. Você fará a páginas diariamente durante todas as semanas do programa e, espero, por muito mais tempo depois. (...)

O que são as páginas matinais? Nada mais do que três páginas escritas à mão, com pensamentos em livre associação (...) Elas também podem ser chamadas, de forma mais infame, de drenagem cerebral, pois essa é uma das funções principais do exercício."

Trecho do livro O Caminho do Artista de Julia Cameron

A vontade de escrever me visita com frequência, e eu estava sendo uma ótima colecionadora de motivos para não segui-la. Além de uma excelente cobradora de mim mesma que estava acumulando frustrações por não estar mergulhando na escrita o tanto quanto a vontade me impulsionava.

Retornar a atualizar esse blog foi uma forma de tentar acumular menos frustrações e abraçar algumas visitas da vontade de escrever. Contudo, eu seguia me vendo como alguém incapaz de se comprometer a escrever diariamente, até que comecei a ler o livro O Caminho do Artista de Julia Cameron há alguns dias. Antes mesmo de começar o programa do curso proposto pelo livro, que sugere exercícios diários distintos a cada capítulo/semana, aceitei o aconselhamento de Julia e dei início a escrita de páginas matinais. 

A princípio consegui fazer antes do final das manhãs e sem me angustiar com o que escrever para preencher as três páginas. Nos últimos dias tem sido mais desafiador preencher as três páginas, porque estou me sabotando, ou porque não consigo fazer pela manhã e fico me culpando ao só sentar para fazer a tarde. Sinto até constrangimento em relatar que teve um dia que eu só consegui parar para escrever a noite.

A disciplina ou indisciplina está conectada com desgaste, angústias, ansiedades, junto a busca diária por me priorizar mais do que priorizar as outras pessoas.

Hoje foi mais um dos dias difíceis, acordei uma hora antes do que acordava justamente para tentar focar nas páginas matinais (o que foi também uma orientação da Julia), mas me distraí com tudo e qualquer coisa. Apenas sentei para escrever ao final da manhã.

Aprendi com Brené Brown sobre autocompaixão, mais do que consigo dimensionar, e acredito que esse aprendizado tem me ajudado a me abraçar mais, a observar quando eu não consigo fazer qualquer coisa que sei que sou capaz de fazer, como escrever as páginas matinais pela manhã. Abraçar também que mesmo que eu esteja me sabotando, não estou deixando de praticar a escrita.

Tive alguns ímpetos de narrar para mim mesma com ironia se eu estava fazendo das páginas matinais, páginas vespertinas. Até que consegui compreender que uma forma de me guiar pela autocompaixão seria a de renomear para mim este exercício diário de escrita, uma vez que para mim é doloroso chamar de páginas matinais quando ocorrer de só conseguir fazer elas depois que a manhã se concluir. E assim pensei porque não chamar de páginas diárias. Inclusive eu passo até a ter mais afeto por elas ao chamá-las de diárias, pois eu já tenho um longo relacionamento com diários (de prática e abandono). 

Na infância o diário era um lugar apenas para guardar segredos, que se tornou para mim um espaço para listar o nome dos atores e atrizes que eu gostava, e dos filmes com eles que assisti. Apenas no começo da minha vida adulta foi que me permiti transformar as minhas agendas em diários. 

Sabia que socialmente fazer um diário era pouco aceito. E eu me permiti desvalorizar essa prática. Ou dei uma disfarçada nela, quando por exemplo me disse que faria um diário das ações que praticava no Sesc para exercitar a minha memória, era também uma forma de trabalhar a ansiedade.

E o abandono veio, devido a não estar conseguindo escrever com frequência na minha agenda/diário. Uma semana sem abrir a agenda ou às vezes mais, e não conseguia desapegar daqueles dias não registrado,  me cobrava lembrar e preencher aquelas páginas vazias, ou levava o ressentimento de ter vários espaços na agenda sem registro. Assim optei por parar.

O diário também inspirou a criação da comunidade fotográfica que gerencio, @diariorefletido, e por dois anos eu consegui postar nelas fotos de minha autoria duas vezes por semana, o que me fez entender que eu consegui manter uma disciplina.

Posso dizer que sou muito grata pelos diários que consegui criar, mesmo que tenham sido mantidos com ou sem disciplina, e que eu tenha respeitado o que desejo de abandoná-los quando foi necessário.

Tão valioso quanto abraçar a vontade de vir aqui compartilhar um pouco sobre minhas páginas diárias e meus diários, é partilhar, ler e reler esse trecho aqui escrito por Julia na checagem dos exercícios e da escrita das páginas matinais: "Como se sentiu fazendo as páginas matinais? (...) Responda essa pergunta detalhadamente na sua página de checagem. Este será um exame semanal de seus sentimentos, e não de seu progresso. Não se preocupe se suas páginas são lamentosas ou banais. Às vezes, isso é exatamente do que você precisa."




  

quinta-feira, maio 05, 2022

Oficina on-line "Curadoria de si" com Larissa Lisboa

A oficina on-line Curadoria de Si, ministrada pela pesquisadora, parecerista e produtora cultural alagoana Larissa Lisboa, surge do desejo de compartilhar processos e vivências acumulados por ela ao longo de sua jornada amadora e profissional junto à fotografia e ao audiovisual, e de oferecer acolhimento para as pessoas que buscam estímulo para persistir apresentando suas obras a editais, eventos e outros.

A ação formativa propõe reflexões a partir da questão “Qual a curadoria e cuidadoria faço de mim?”, tem como objetivo apresentar processos para estimular e inspirar processos, incentivar o reconhecimento de possibilidades e distribuir referências e aprendizados. Curadoria de si será composta por três encontros on-line (totalizando 8 horas), o primeiro com foco nas reflexões sobre autoconhecimento, processo criativo e curatorial, segundo e terceiro com foco em processos de obras criadas por Larissa Lisboa (esboços de fotolivros, séries fotográficas e filmes).

Serão ofertadas 20 vagas mediante pagamento de um dos valores conscientes propostos como taxa da oficina. Serão oferecidas duas bolsas gratuitas, além das vinte vagas, destinadas a dar acesso gratuito a pessoas trans e/ou travestis.

Os participantes da oficina podem incentivar que sejam ofertadas uma ou duas bolsas extras: cada oito participantes que contribuírem com o valor colaborativo (R$ 120,00) e/ou a cada dez participantes que optarem por contribuir com o valor básico (R$ 90,00), será oferecida uma bolsa extra para dar acesso gratuito a pessoas trans e/ou travestis.

Dias: 21 e 28/05 das 9:00 às 11:30, e 04/06 das 9:00 às 12:00 (aulas on-line).
Valores conscientes: R$ 60,00 (social), R$ 90,00 (básico), R$ 120,00 (colaborativo)
Vagas: 20 + 2 ou 4 bolsas gratuitas para pessoas trans e/ou travestis
Link para formulário de inscrição: https://forms.gle/hj8baGV9c3zndQBu5 
Pix: larislisboa@gmail.com

Prazo de inscrição: valor consciente até 20/05 bolsas gratuitas até 19/05




Sobre Larissa Lisboa (@larislisboa | @larefletida)

Possui graduação em Jornalismo e especialização em Tecnologias Web para negócios. É coidealizadora e gestora do Alagoar (@alagoar), compõe a equipe do Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. Contemplada no Prêmio Vera Arruda com o Webinário: Cultura e Cinema. É diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, e em ministrar oficinas em audiovisual. Atua como parecerista de editais de incentivo à cultura. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 a 2020).

quinta-feira, março 31, 2022

Aniversário do Alagoar, como celebrar?

Ver o Alagoar caminhar para alcançar um ano de existência foi um momento emocionante, o qual nos propomos a celebrar com o lançamento da identidade visual desenvolvida pela Núcleo Zero no Rex Jazz Bar em Maceió-AL, junto a exibição de filmes e videoclipe, e discotecagem do Coletivo Popfuzz e de Luk Lisboa (fotos por Jul Sousa, veja aqui).

2016 - Entrevista com as coidealizadoras do Alagoar, Amanda Duarte e Larissa Lisboa por Rafhael Barbosa: Alagoar se consolida como ponto de convergência do audiovisual alagoano

Pensar e desejar fazer celebrações a cada ano parecia uma opção, mas ao mesmo tempo quando o aniversário do Alagoar voltava a se aproximar, a viabilidade se comprovava mais desafiadora do que eu antevia. Sonhei em voltar a exibir filmes, mas não voltei a fazer isso pelo Alagoar antes da pandemia de Covid-19.

Em 2020, a pandemia me ensinou a propor diálogos pelo Alagoar virtualmente, e porque não começar a fazer live para comemorar o aniversário do projeto, e seguir fazendo mais algumas, parte delas está disponível no IG do @alagoar

2020 - Alagoar comemora cinco anos e faz história por Larissa Lisboa na Mídia Caeté 

Graças ao edital Prêmio Elinaldo Barros da Lei Aldir Blanc, foi possível sonhar a voltar a fazer exibições de filmes pelo Alagoar, somado ao desejo de celebrar o centenário do audiovisual alagoano com um festival de filmes realizados por pessoas alagoanas ou residentes no estado.

Através do Festival Alagoanes foram exibidos 94 filmes, realizados 24 debates e seis oficinas, entre fevereiro e maio de 2021. O Alagoar completou o seu sexto ciclo em meio a programação do Alagoanes, e além desta vivência intensa como presente, também contou com o lançamento do podcast Fuxico de Cinema no dia 30 de julho de 2021 como comemoração de seus seis anos e seis meses.

2021 - Luz, câmera e vamos Alagoar por Maria Viviane de Melo Silva  

Em 2022, a comemoração voltou a ser simbólica como foi na maioria dos sete anos do Alagoar. Rolou desejo de propor alguma ação, assim como cobrança interna e pessoal, somado a possibilidade de aceitar o que foi e é possível fazer e viver.

E uma das possibilidade é a de estar aqui rememorando e compartilhando. Em especial para mim que vivo e penso o Alagoar diariamente, inúmeras são as oportunidades e formas de celebrar a existência e persistência deste projeto, que já fez e faz muito por mim, e que me ensinou e ensina a fazer mais por mim também.  

Como tradição acredito que vale muito seguir lembrando e agradecendo a parceria de Amanda Duarte, que é coidealizadora do Alagoar, a presença dela foi disparadora do amadurecimento do que era um blog "abandonado", em uma iniciativa que aflora com o tempo e tem inúmeros motivos para seguir somando.

Agradecimentos a todas as presenças e ausências.  

sábado, março 19, 2022

Desapegando de "Negativas"

Em 19 de novembro de 2020, estava eu mais uma vez me lamentando para mim mesma sobre não ter recebido do fotógrafo contratado as minhas fotografias de 15 anos. Um lamento que eu sabia que precisava ressignificar já há alguns anos, e que tinha sido reacendido quando eu reencontrei o tal fotógrafo num evento em 2015.

Minha festa de quinze anos foi feita de forma privilegiada, num restaurante, com vestido caríssimo - que minha tia me deu  e que eu usei apenas naquele dia, com filmagem e fotografia, as quais se tornaram ficção por jamais terem sido entregues a minha mãe que foi quem contratou o serviço.

Ainda no ano da festa, anos 2000, ele levou um positivo das fotografias (revelação em miniatura das fotos) para que escolhêssemos quais deveriam ser reveladas. Não lembro quantas vezes minha mãe ligou cobrando ele, mas por alguns anos ela manteve uma frequência nas cobranças e ele prometia entregar mas não cumpria.

O meu reencontro com o tal fotógrafo que "perdeu" a filmagem e os negativos da minha festa de 15 anos se deu, exatamente 15 anos após, foi uma surpresa e senti uma imensa vergonha em ainda precisar cobrá-lo, senti também, equivocadamente inclusive, como se eu ou minha mãe tivéssemos culpa. Não tinha porque ter vergonha nem culpa, mas eu levei um tempo para processar isso.

Entre 2015 e 2017 segui reencontrando o tal fotógrafo anualmente no mesmo evento, e ele foi capaz de me dizer que havia localizado um dos negativos, o que me deu falsas esperanças.

Cansada, e munida da inspiração de ter visto um documentário no qual a diretora havia reavisto após décadas os negativos do filme que ela havia gravado na adolescência, que haviam sido privados a ela pelo produtor do filme. Mandei uma mensagem desaforada para o tal fotógrafo, expressando o meu sofrimento pela primeira vez e emanando o desejo de transformar esta frustração em coisa boa (secretamente desejava que fosse inspiração para um filme ou coisa assim).

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Havia esquecimento, não passava o tempo todo pensando na filmagem e nas imagens que não tinha recebido dos meus 15 anos. Mas havia gatilhos que me faziam lembrar, e havia a consciência de que o que me restava era não esquecer porque essa era uma forma de não apagar mais ainda aquela memória já esmaecida, assim como também fazia parte do meu processo de aprendizado e da minha busca por ressignificar a frustração.

Ressignificando negativas

Desejava acreditar que poderia fazer um filme sobre aquela frustração, mas não tinha muita fé que conseguiria fazer isso sem reaver qualquer fotografia ou material da minha festa de 15 anos porque estava presa num desejo de representação objetiva, numa necessidade de resgate.

Nas minhas férias em 2020, no meio da pandemia de Covid-19, ensaiei filmar a mim mesma, e também uma conversa com minha mãe sobre a minha festa de 15 anos, e empaquei. Contudo, naquele  novembro, além do lamento, também fui visitada pela compreensão de que qualquer negativo de filme fotográfico 35mm poderia representar os negativos das fotografias da minha festa de 15 anos.

Pode parecer algo óbvio e tolo, sim, negativos se relacionam com negativos, no entanto, para mim foi extraordinário. Já havia fotografado uma película de 35mm, quando ganhei uma de presente há muitos anos atrás, mas jamais havia fotografado negativos.

Apesar de ter me entusiasmado ainda procrastinei um pouco, e foi no impulso de romper com a procrastinação que no dia 31 de dezembro de 2020 fiz inúmeras fotografias contínuas que poderiam ter sido apenas um ensaio ou experimento, mas como eu sabia que corria o risco de procrastinar mais, preferi fazer e manter a construção de um filme de animação de stop motion a partir do que consegui produzir de improviso naquele momento.

Estava muito comprometida com a procrastinação, e acredito que ainda tendo a fazer isso na hora de construir os meus filmes. Acredito que após protelar mais um pouco, montei o primeiro e único corte de "Negativo" em março de 2021. 

Acredito que eu já havia terminado a montagem do filme quando cogitei que podia reunir aquelas mesmas fotografias que usei para animá-lo como um ensaio fotográfico que denominei "Negativas", composto por 12 fotografias, algo que me foi provocado ao encontrar uma convocatória para publicação de um ensaio fotográfico num fotolivro coletivo.

Acesse o ensaio "Negativas" aqui

Você sabe desapegar de negativas?

Eu sabia que eu sabia, mas que eu também não sabia, rs 

Meu ensaio "Nagativas" não foi selecionado, e foi doloroso para mim lidar com isso. Embora fosse capaz de entender que aquela negativa não deveria diminuir o valor do meu trabalho, hoje eu sei que é preciso mais do que entender.

A dor que eu senti veio da vergonha que eu embarquei por não encontrar o reconhecimento que eu procurei. E é natural sentir vergonha, e pode ser tranquilo sentir ela e processá-la. Mas além de ter processado apenas superficialmente aquela vergonha que eu senti, eu ainda estava muito presa a minha impostora e também refém da minha insegurança, por ter o mau hábito de ficar me comparando com as outras pessoas.

O que eu aprendi com o trabalho da Brené Brown (que talvez você já tenha me visto falar sobre aqui em outras postagens) foi que a principal ferramenta na busca por desenvolver a resiliência à vergonha é identificar alguém que me dê empatia e falar sobre a vergonha que eu senti. (Na medida que eu pude, pratiquei isso naquela época.)  

Aprendi, entre tantas outras coisas com o trabalho de Brown, a fortalecer o meu autoconhecimento, e a me libertar da necessidade de ser reconhecida, a combater a minha impostora, a ressignificar a prática da comparação como ferramenta de sobrevivência, e não como medida do que sou ou do valor que eu devo me dar, e a desconstruir narrativas pessoais que fortaleciam a minha insegurança.

Foi inspirada no que estava aprendendo com as leituras dos livros de Brown que em dezembro de 2021, escrevi sobre a vergonha que senti ao ver que o meu filme "Negativo" não havia sido selecionado na 12ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano (Da escolha de não silenciar a vergonha). Fato que mais uma vez me impactou porque eu ainda estava medindo o valor das minhas criações a partir do reconhecimento externo.

No entanto, ao contrário do que fiz com "Negativas" que eu deixei guardado e esquecido, tenho buscado seguir escrevendo "Negativo" em mostras e festivais quando sinto vontade, por mais que ainda venha uma impostora me dizer que meu filme seguirá sendo invisibilizado.

E apesar da minha impostora me atrapalhar ainda quando eu encontro coragem de me colocar à mercê do reconhecimento externo, tenho me sentido mais disposta a reconhecer o meu valor, como também de falar, escrever e compartilhar o que sinto e crio, o que me fez vir escrever este texto e compartilhar o ensaio "Negativas" no Facebook e Instagram da La Refletida.

Receber negativas e não deixar elas me desanimarem, nem que me façam acreditar que o meu trabalho merece ser invisibilizado segue sendo o desafio. Em particular, como "Negativas" e "Negativo" são respostas minhas inspiradas numa vivência que me frustrou, preciso me lembrar de não somatizar as frustrações também.

Estou aprendendo a me lembrar que o principal reconhecimento é o meu, e assim conseguir ter coragem para lidar com os gatilhos que venham a sugerir que o meu trabalho é menor ou de que está inacabado, visto que não há como evitar que as pessoas vejam o que eu faço da forma delas, mas que ao mesmo tempo eu preciso discernir e não valorizar o que me machuca e desestimula.